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Um ano de glórias ao nacional

Ano 2000. Esse foi um período de muitas alegrias e que fez renascer o orgulho ao cinema nacional. Um dos motivos foi, sem dúvida, o filme “Central do Brasil”, que conseguiu ótimos comentários da crítica e chegou a concorrer ao Oscar, em meio a tantos filmes estrangeiros. É difícil recordar um outro momento em que o filme nacional apareceu tão prestigiado, e dessa vez, mundialmente reconhecido. Difícil também aquele que tenha deixado de prestigiar a brilhante atuação de Fernanda Montenegro, seja no próprio cinema, na TV ou em VHS.

 Mas o ano de 2000 não se resume somente à Central do Brasil. O momento, felizmente, teve outras grandes vitórias que certamente ficarão marcadas para a história cinematográfica. Um outro bom exemplo é o filme Eu Tu Eles, que apesar de tratar de um tema clichê para as produções nacionais, que é o sertão, consegue ter uma estética diferente e foge do que usualmente acontece em filmes desse gênero. O que mais impressiona na obra é o sensível humanismo que permeia o filme.

 Não podemos deixar de citar também o filme Cronicamente Inviável.  Apesar da obra exaltar a não linearidade, por meio do deboche, da sátira e do incorreto, tem uma bela proposta de colocar a realidade brasileira em questão.

 Uma outra produção que merece destaque é Amélia. A história, que conta a vida da auxiliar de uma francesa, reforça, categoricamente, questões culturais e sociais. O filme ridiculariza a tendência do brasileiro exaltar tudo aquilo que é estrangeiro.

O ano também trouxe uma grande produção infantil baseada na série Castelo Há-Tim-Bum, exibida pela TV Cultura, que sai um pouco da mesmice dos filmes do gênero que se resumiam em Trapalhões e Xuxa.

 Enfim...O ano 2000 foi repleto de grandes produções e todas elas deixaram sua marca e surpreenderam pela diversidade estética que teve espaço para dramas, comédias, infantis...Finalmente a filmografia brasileira começa a respirar, em meio a tantas dificuldades e rejeições.

 (Kathlen Ramos - CineClaquete)

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Divergências entre a programação televisiva e as produções nacionais

 Um fato não pode ser negado. A programação brasileira é quase que totalmente vinda de terceiros. É muito difícil presenciarmos um canal reservar espaço para a transmissão de algum produto tipicamente nacional.

 Há canais também que formam um tipo de "indústria cultural", como é o caso da Globo. Seus programas, apesar de serem nacionais, são produtos feitos pela própria empresa. Vale reforçar que na Globo, isso não acontece só na TV, mas também no rádio, na internet, nos jornais, em revistas e até no cinema.

 O maior mal de tudo isso é que as produções nacionais acabam perdendo espaço, e deixando de divulgar bons filmes e novos talentos. O ciclo fica fechado e resumido ao que vem de fora e também a tal da "indústria cultural".

 Mas será que esse problema tem solução? Muito dizem que sim. Mas falta força de vontade. E não é só da Globo...O SBT, por exemplo, podem ser outro ponto de referência. A emissora traz em sua programação diversos filmes e novelas mexicanos, talvez para diminuir o custo do que vai ao ar. Produzir tudo, como a Globo faz, pode se tornar muito caro.

 E esses fatos não se resumem apenas a TV aberta. Os canais por assinatura também não arriscam no nacional (aliás o público pode rejeitar!). Isso se torna um grande impasse e uma frustração àqueles que valorizam e tentam abrir as portas ao que vem daqui.

Mas muito pode ser feito. Impedir que um canal 100% do que leva ao ar ou a diminuição ou isenção de impostos estaduais ou municipais para salas que passarem a exibir filme brasileiros seria um bom começo.

Muito pode ser feito...Só falta iniciativa....Acorda Brasil!!!!

 (Kathlen Ramos - CineClaquete)

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As dificuldades do cinema brasileiro na década de 90

 Há aqueles que acreditam que o cinema brasileiro ainda não atingiu as expectativas que o público e a crítica esperavam. Mas é válido ressaltar que os anos 2000 e 2001 foram de grandes vitórias às produções nacionais. Muitos filmes foram consagrados e já fazem parte da história cinematográfica mundial.

 Na década de 90, com o Presidente Fernando Collor de Mello, a situação foi bem diferente. Em sua gestação, ele extinguiu a Embrafilme e a Fundação do Cinema Brasileiro, que eram um dos poucos órgãos que apoiavam o cinema do Brasil. No entanto, o que todos esperavam, era que essas instituições (que já não estavam tendo muitos resultados), fossem substituídas ou reformuladas. Mas o que aconteceu foi que elas caíram no esquecimento.

 Essas medidas refletiram diretamente nas produções feitas nessa época, que formam, mo máximo, três longas metragens. Somente quando Collor foi deposto e Itamar assumiu a presidência, os fatos começaram a se reverter gradativamente, com a criação de novas leis federais de apoio à produção.

 Mas muitos problemas tiveram (e ainda tem) de ser enfrentados como a distribuição ineficiente de filmes, as salas de cinema que não exibem produtos nacionais, retorno financeiro limitado (já que o público dificilmente prestigia as produções feitas aqui), a exibição reduzida ou nula de filmes brasileiros, entre muitos outros.

 Portanto, diante de todo esse diagnóstico e da visível falta de apoio dos órgãos competente, a cinematografia nacional, tem poucos argumentos para ser criticada. Àqueles que prestigiam o cinema feito na Brasil, tem de se orgulhar da evolução que técnica e linguística que as produções tiveram. E, acima de tudo, admirar os poucos que contribuíram com muita raça (apesar do pequeno incentivo) para que a sétima arte da nossa terra natal desse a volta por cima....

(Kathlen Ramos - CineClaquete)

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Uma breve análise da Companhia Cinematográfica Vera Cruz

 Quatro de dezembro de 1949. Surge na cidade de São Bernardo do Campo, a primeira companhia cinematográfica brasileira, a Vera Cruz. Logo no começo, o objetivo era trazer status ao Brasil e aos donos do empreendimento (Franco Zampari e Francisco Matarazzo Sobrinho).

Nas época, o que poderia mostrar a potência do país ao mundo era a cultura. A burguesia teria assim mais segurança, poder e prestígio. Diante desses prospecto, a cinema nacional, teria se tornar, de uma hora para outra, similar ao que era produzido em Hollywood.

 Só que temos que levar em conta, que o cinema norte-americano, estava décadas a nossa frente e tinha fortes alicerces para ter a capacidade e o prestígio que mostrava (e ainda mostra) ao mundo.

 Infelizmente, os fundadores da Vera Cruz não enxergaram isso.  Chamaram grandes nomes e muitos estrangeiros (de qualidade profissional questionável) para reforçar seus propósitos.

 Muito dinheiro foi investido, mas, sem perspectiva de volta. A Vera Cruz logo se afundou em dívidas e foi vendida, graças a ambição dos proprietários que acreditaram que a Vera Cruz se compararia as produções do primeiro mundo da noite para o dia.

 Mesmo com os propósitos totalmente desfalcados, a companhia, além de precursora do cinema nacional, serviu de incentivo para que outras produtoras fossem feitas, como a Maristela e a Multifilmes.

 A Vera Cruz trouxe mais experiência àqueles que trabalharam nela, revelou brilhantes atores como Mazzaropi e fez filmes que participam expressivamente da história do cinema, como O Cangaceiro, que chegou a ser premiado no Festival de Cannes.

 O começo da cinema no país começou por linhas tortas, mas felizmente, teve muita história pra contar...

 (Kathlen Ramos - CineClaquete)

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Das profundezas ao sucesso

 Filho de uma família humilde, descendente de espanhóis, José Mojica Marins, mais conhecido por seu clássico personagem Zé do Caixão, nasceu no dia 13 de março de 1936.

Desde muito cedo demonstrou inclinação para cinema e teatro, pois, não raro, passava horas a fio brincando de teatro de bonecos, ou assistindo a filmes, no cinema onde seu pai trabalhava.

O gosto por cinema e teatro fez-se sentir de forma mais contundente, quando aos 8 anos de idade, “dirigiu” uma peça na escola onde estudava. Na adolescência montou uma escola na qual ele dava aula de interpretação para a vizinhança e amigos. Aos dezessete anos já havia feito vários filmes amadores e, com a ajuda de amigos que tinham o mesmo ideal, fundou a “Companhia Cinematográfica Atlas”.

Essa fascinação pelo cinema não mais o abandonou, estava impregnada em seu sangue e, mesmo os vários fracassos que teve que enfrentar até que conseguisse terminar seu primeiro trabalho como profissional, o filme A sina de Aventureiro, jamais o fizeram desanimar. A partir de então, o garoto pobre, tido como louco e vagabundo pelos vizinhos, e que nunca havia tido aulas de cinema, pois era um autodidata, tornava-se um cineasta.

Em sua trajetória, Mojica, passou por incontáveis dificuldades, tanto com relação a recursos financeiros, à precariedade de recursos técnicos, o que, mesmo tempo permiti-lhe demonstrar seu talento improvisador, quanto com relação à censura que o perseguia de maneira tão contundente, retalhando, fazendo cortes, mudando o roteiro de seus filmes e chegando até a reter um deles: Ritual Sádico, de 1970 até 1986.

Nenhum cineasta brasileiro foi capaz, como ele, despertar sentimentos tão antagônicos e profundos de amor e ódio, devido ao seu estilo forte, sub-real e aterrorizante, que lhe valeu a fama de intelectual e ignorante, ingênuo e maquiavélico, gênio e louco.

Criou o famoso personagem Zé do Caixão, que tornou sua alcunha e que o transformou numa lenda, Josefel Zanatas (o que ao contrário quer dizer Satanaz), o verdadeiro nome do Zé do Caixão, um agente funerário que não crê no sobrenatural, ultra materialista, que crê ser o mais perfeito do mundo e que só tem em mente a busca por um “filho perfeito”, que o transformaria num ser imortal através de seus descendentes. Sua personalidade revoltada com a humanidade, enojada com a religião, que ridiculariza o sobrenatural e seus praticantes transforma-o numa aberração que todos tentam destruir. Mas a figura do Zé do Caixão tornou-se uma entidade, parte do folclore mistificada em “um ser do além”.

Por ter sempre demonstrado uma incrível capacidade de improvisação em seus filmes, por criar o personagem Zé do Caixão que por problemas financeiros e por não conseguir um ator que quisesse interpretar o personagem, ele mesmo, encarnou-o, por transformar esse personagem em parte do folclore brasileiro, por sua invejável força de vontade, por seu estilo peculiar, sem nunca ter estudado para ser cineasta, José Mojica adquiriu fama, respeito e admiração dentro do cenário cinematográfico do país.

 (Adriana Moda - CineClaquete)

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Otelo, o Grande

 Um dos maiores comediantes brasileiro, Sebastião Bernardes de Souza Prata (Grande Otelo), nasceu em Uberlândia, MG, em 18 de outubro de 1915.

Teve uma infância sofrida e marcada pela tragédia: o pai morreu esfaqueado e a mãe, cozinheira, bebia muito. Quando a mãe decidiu-se casar novamente, ele resolveu fugir com uma companhia de teatro de mambembe que visitava a cidade. Foi adotado pela diretora do grupo, mas fugiu novamente, indo parar no juizado de menores, onde foi novamente adotado, desta vez pela família de Antônio de Queiroz. Essa adoção, garantiu-lhe vida boa, bons estudos no colégio Sagrado Coração de Jesus e a intenção de transformá-lo em um advogado.

Mas, sua decisão de ser artista surgida já aos oito anos quando ao assistir o filme de Charles Chaplin, não mais o abandonaria.

Em 1932, entrou para a Companhia Jardel Jércolis e já era chamado pelos amigos de pequeno Otelo, por causa de sua estatura, 1.50 m. Quando atuava na musical Goal, em 1935, ganhou o apelido que o consagraria, Grande Otelo.

Seu tipo físico de olhos esbugalhados, seu jeito divertido e popular, sua queda para a graça fizeram com que, a partir de 1935, formasse com Oscarito, a dupla cômica mais famosa do teatro brasileiro, junto às camadas populares com treze filmes estrelados.

Mas Otelo não era apenas um grande comediante, era também um ator dramático de talento e autenticidade como pode ser visto em Moleque Tião, 1943, inspirado em sua vida, e Rio Zona Norte, 1957.

Em 1960, foi adotado pelo cinema novo, encarnando Macunaíma, personagem que ele jurou ter ajudado o escritor Mário de Andrade a construir.

Também era compositor de sambas, fazendo parceria com Herivelto Martins e Garoto, atuou em telenovelas e ainda escreveu o livro Bom dia, Manhã, 1993.

Morreu em Paris, quando desembarcava no aeroporto Charles de Gaulle, rumo a Nantes, onde seria homenageado no festival de cinema local.

O fato de ser negro, muito baixo, feio, assim como os dramas da vida: o pai ter sido esfaqueado e a mãe uma alcoólatra, ter crescido longe da família até em juizado de menores, a mulher assassinar o filho de seis anos e suicidar-se não foram suficientes para apagar sua graça, sua vivacidade, seu talento.            

 (Adriana Moda - CineClaquete)

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Mário Peixoto: o gênio de uma magia única

 Mário José Breves Rodrigues Peixoto, ou simplesmente, Mário Peixoto, é considerado um dos grandes gênios do cinema nacional, mesmo tendo produzido um único filme, Limite, que é  a maior obra do cinema mudo nacional.

Mário, que na época tinha 22 para 23 anos, utilizou a fazenda Santa Justina, que pertencia a Victor Breves, tio de Mário, para as filmagens de Limite. O apoio e o prestígio da família Breves, foi fundamental para a realização do filme.

A obra de Mário Peixoto, retratada na figura dos personagens: o sofrimento, a inutilidade da vida, e a tragédia humana. É um filme que retrata o limite humano, com disse o próprio Mario, carregado de angústia, desespero, terror.

Em sua estréia, 1931, o filme foi não bem recebido pela crítica e nem pelo público brasileiro, tendo um reconhecimento muito maior na Europa. Sendo quase que completamente esquecido no Brasil, exceto por Plínio Sussekind, que periodicamente exibia o filme na Faculdade Nacional de filosofia.

Após receber um telefonema de Mário, no qual dizia que o filme estava se deteriorando, Plínio Sussekind e Rodrigo Mello de Andrade, deram início a um longo processo de recuperação da obra, que seria finalizado apenas em 1978. Após a restauração, finalmente, o filme de Mário teve seu valor reconhecido, recebendo inúmeras críticas elogiosas, por todas as partes do mundo por onde passou.

Com o reconhecimento da genialidade de Mário Peixoto, foi inaugurado no Rio o arquivo de Mário Peixoto, no qual consta informações detalhadas sobre o artista, sua vida e sua obra. Incluindo duas obras ainda menos conhecidas, de Mário: o escritor e poeta, Mundéu , um livro de poemas publicado em 1931 e O inútil de cada um, único romance publicado em 1933, em edição particular. Em 1984 foi publicado um “novo” O inútil de cada um, obra que havia sido retrabalhada por Mário

Um homem, que teve seu valor reconhecido após quase 40 anos da estréia de seu único filme, e hoje, é reconhecidamente um dos grandes cineastas brasileiros, assim é Mario Peixoto, que teve o projeto de um segundo filme nunca terminado, Onde a Terra Acaba, e justamente por esse motivo é conhecido como o gênio de uma obra só.

 (Adriana Moda - CineClaquete)

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Falta de diálogo leva jovem ao manicômio

 Inspirado no livro, O canto dos malditos, o filme retrata a história de Austregésilo Cerrano Bueno, um curitibano, que vivia no ano de 1974, internado em um hospital psiquiátrico, após seu pai descobrir que ele fumava maconha. Bicho de Sete Cabeças, título nacional mais premiado do ano, ganhador de nove prêmios nos festivais de Brasília e de Recife, incluindo o de melhor ator para Rodrigo Santoro e de melhor filme.

É uma adaptação nos tempos modernos, vivida na cidade de São Paulo, onde Neto, um jovem de classe média e estudante do segundo grau, passa seus dias andando de skate e fumando maconha com seus colegas. O filme retrata o frágil relacionamento de Neto com seus pais (Cássia Kiss e Othon Bastos), demonstrado em cena um garoto que decide viajar sem comunicar o fato a seus pais. Os conflitos familiares têm seu auge quando o pai encontra um cigarro de maconha e decide internar Neto em uma clínica psiquiátrica. 

O jovem adolescente depara-se com um cenário assustador, cercado por doentes mentais, sendo que seu tratamento resume-se a tomar calmantes fortíssimos obedecer às regras da instituição, tamanha agonia e aflição, além de uma longa estadia na instituição fazem com que Neto, acredite que seu lugar é realmente no hospício.

O filme que tem como um de seus pontos principais a fidelidade em retratar os fatos reais, não só demonstrando os maus tratos e a total falência do sistema psiquiátrico brasileiro, também mostra a triste realidade da falta de diálogo e de relacionamento familiar que existe em algumas famílias na sociedade brasileira.

Falta de diálogo que, a cada dia, é mais acentuada devido à correria e a falta de tempo do cotidiano de cada um. O tempo antes usado para a conversa com a família, entre pais e filhos, hoje é preenchido em grande parte pelo excesso de trabalho, pelo nervosismo dos tempos modernos, pela tecnologia.

O homem criou máquinas para melhorar seu dia a dia, para ter mais tempo, mas todo esse avanço tecnológico só diminuiu seu tempo disponível para si e para os outros a sua volta, para a conversa ao jantar, para a interação entre amigos, para o diálogo. Em Bicho de Sete Cabeças, a história é outra, mas o foco central é o mesmo: a falta de proximidade e diálogo entre as pessoas.

 (Adriana Moda - CineClaquete)

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Boleiros - Era Uma Vez O Futebol....

Boleiros é um filme que fala do futebol, não da partida em si. Apesar de
em uma ou duas seqüências o próprio jogo se tornar importante na narrativa,
na maior parte do filme o diretor Giorgetti aborda assuntos paralelos a ele,
preferindo se concentrar nas vidas ligadas a este esporte: o jogador, o
técnico, o juiz, o empresário de atletas, as esposas, os torcedores, e assim
por diante.

Num típico bar paulistano( o próprio humor do diretor é extremamente
paulistano), onde fotos de jogadores estão espalhadas pelas paredes, seis
amigos costumam se encontrar para relembrarem os velhos tempos. O que eles
têm em comum: são todos boleiros, profissionais e ex-profissionais do
futebol. Reunidos à mesa, eles alinhavam aqui e ali uma observação que os
remete a algum caso curioso e inesquecível de que tiveram notícia. A partir
daí, o roteiro de Giorgetti nos conta seis pequenas histórias: algumas
engraçadas, outras divertidas, outras comoventes. Sempre tratando de forma
bastante inteligente e cativante, com alguns personagens inesquecíveis.

O filme tem um início forte: Giorgetti escolheu, sabiamente, a história
sobre o Pênalti para iniciar sua narrativa. Digo 'sabiamente' porque esta é,
sem dúvida, a mais engraçada de todo o filme e, assim, já coloca a platéia
no clima adequado para receber o restante da história. E funciona: a partir
daí, o público ri de praticamente tudo o que aparece no filme, mesmo quando
a coisa não é tão engraçada assim. O segundo episódio é o mais sentimental
de todo o filme, funcionando maravilhosamente bem.

O Pivete é uma pequena análise sobre a violência, a desigualdade social e o
talento. Nele, Otávio (Stuart), dono de uma escolinha de futebol, conhece um
garoto que é um verdadeiro craque. O problema é que o menino é um pequeno
marginal que tem uma vida misteriosa. Em Azul, o quarto episódio, Giorgetti
mais uma vez mistura, com talento, humor e reflexão. Azul é um jogador que
acaba de fazer o gol mais bonito de toda sua carreira (na verdade, o diretor
usou o gol feito por Dener, há alguns anos atrás, e que muitos consideram o
gol mais bonito da década de 90). No entanto, a vida do jogador vai ser
bastante atribulada naquela noite: ele terá que escapar de uma garota com a
qual tem uma filha; passa por um programa de rádio; por uma mesa-redonda
(divertidíssima, por sinal, com a presença do humorista Serginho Leite); e
vai, finalmente, se encontrar com um empresário italiano que quer levá-lo
para a Europa. O final do episódio é uma crítica aberta ao preconceito e -
mais uma vez - às desigualdades em nosso país.

O quinto episódio, sobre o jogador contundido, também é bastante engraçado,
graças à presença luminosa de três estreantes: Adilson Pancho, Robson Nunes
e Eduardo Mancini. O trio de corintianos fanáticos (que são capazes de tudo
para fazer com que a contusão do astro do time melhore) é hilário.
Infelizmente, o final do episódio é mal-resolvido, com uma fraca
participação de André Abujamra. Já o sexto episódio, Frio, é o mais fraco de
todos - o que é uma pena, já que fecha o filme. Excetuando-se a atuação
sempre competente de Lima Duarte, a história de Frio é até interessante, mas
tem uma resolução pra lá de insatisfatória. Assim, muitos são os que saem do
cinema com aquela sensação de 'Acabou assim?'.

Todos os episódios têm belíssimas atuações, e a escolha do elenco foi ótima.
Agradou-me, particularmente, o equilíbrio que o diretor Giorgetti teve ao
mesclar atores já consagrados, globais, com outros não tão conhecidos e
estreantes. Este equilíbrio, que faltou a Policarpo Quaresma, por exemplo,
facilita para o público a identificação com os personagens, sem distrações
do tipo: 'Olha! É aquele ator!'. Num elenco com atuações tão boas fica
difícil destacar alguém, mas não posso deixar de comentar a maravilhosa
performance de Flávio Migliaccio. Seu Naldinho é comovente, ingênuo,
divertido em sua simplicidade. Seu monólogo final, apesar de encerrar o
filme um pouco 'para baixo', é bem emocionante. Adriano Stuart e Rogério
Cardoso também têm ótimos momentos. (Curiosidade: Stuart tem uma antiga
carreira como diretor, tendo dirigido alguns filmes da época mais 'fértil'
dos 'Trapalhões').

Boleiros é, sem dúvida, mais um belo exemplar de nosso cinema, merecendo ser
visto. Mesclando emoção e humor, o filme tem tudo para fazer um gol de placa
- como o do Azul.

Edjane Ferreira - CineClaquete

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Bufo Spallanzanni

Antes de tudo é difícil as pessoas irem assistir a um filme com um nome
que não conseguem pronunciar ou guardar. Não é desculpa o fato desse ser o
titulo original do livro de Rubem Fonseca, em que ele é baseado. Milhões de
vezes o cinema mudou o nome para algo mais atraente e compreensível. E, na
verdade, todo o problema da fita advém justamente do fato de que esse livro
já não é isso tudo. Rubem Fonseca é um bom contista mas não dá certo como
romancista (aí está o Walter Salles que não me deixa mentir, porque ele
também quebrou a cara quando adaptou outro livro dele, ''A Grande Arte'',
outra pseudo boa obra policial).

A obra quando enquanto é observada no livro manten-se camuflada, mas quando
exposta á um roteiro ciunematográfica torna´se um emaranhado de clichês.
É uma pena que Flávio R. Tambellini , um dos mais respeitados produtores
atualmente em atividade no Brasil demonstre sua competência artesanal num
projeto discutível, principalmente como trama policial. Começa de forma
intrigante, com uma mulher rica e casada (Maitê Proença) sendo assassinada
num carro num lugar deserto. O detetive Guedes (Tony Ramos, em personagem
calcado em dezenas de fitas americanas, muito distante da realidade do
policial brasileiro) investiga o caso e por acaso anos antes ele já tinha se
envolvido com o marido dela, um certo Delamare (Gracindo Jr), o que também é
mostrado de forma paralela. E com a ajuda de um escritor, Gustavo (José
Mayer), e de um cientista amigo (Juca de Oliveira), que terá o fim de todo
amigo de mocinho no cinema, ou seja... irá descobrir uma trama complicada
(outra vez, prefiro não entrar no mérito ou revelar a história para não ser
estraga prazeres, basta dizer que o título terá sua justificativa e
explicação).

Quatro vezes premiado em Gramado, nada a dizer contra Juca de Olivieira, que
foi melhor coadjuvante e sempre foi ótimo, nem contra Tony Ramos, que é
outro ator competente que infelizmente ficou estereotipado pela televisão.
Mas não tinha dúvida que era capaz de vôos mais altos. Ainda mais agora na
maturidade. Mas é uma piada darem um prêmio de interpretação para Isabel
Gueron, só se foi pelo fato de passar a maior parte do tempo pelada (se não
me engano ela foi a dublê de Fernandinha Torres em Gêmeas). Porque não há
maiores indícios de talento.
Alternando clichês com bobagens, o filme só se sustenta por causa do
trabalho do realizador, que sabe segurar e estimular o elenco e não acentua
as deficiências do roteiro e mesmo do livro original. É de qualquer forma
uma estréia promissora num filme que tem um resultado médio e acima da
média. Mas não é tudo o que se podia esperar de Tambelini.

Edjane Ferreira - CineClaquete

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''Bicho de 7 Cabeças''

O filme trata de um tema extremamente interessante e pouco explorado no
nosso cinema, a vida dentro de um manicômio. Um adolescente de classe média
baixa, suposta boa formação, que leva uma vida normal, até o dia em que o
pai o interna em um hospital para doentes mentais depois de encontrar um
cigarro de maconha no bolso de seu casaco. Inicia-se uma verdadeira
tragédia na família.

Como todo adolescente que se preze, Neto está na busca de emoções e
liberdade, sendo também rebelde, e cometendo pequenos delitos como pichar
muros e usar brincos. Seus pais não entendem seu modo de viver. A falta de
entendimento leva ao emudecimento na relação dentro de casa e o medo de
perder o controle sobre o filho vira o amor do avesso.

No manicômio o adolescente conhece uma realidade completamente absurda e
desumana, onde as pessoas são devoradas por um sistema corrupto e cruel. O
descaso e a falta de interesse por parte do governo em relação ás pessoas
que sofrem destes tipos de problemas mentais é simplesmente absurda.
A linguagem é como a de um documentário. Utilizada pela diretora empresta ao
filme uma forte sensação de realidade, aumentando ainda mais o impacto das
emoções vividas pelo protagonista.

Edjane Ferreira - CineClaquete

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